Unifesp realiza pesquisa genética sobre a Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo (SHCE)

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Durcila Cordeiro

Admin Blog

O Médico Geneticista e Professor Adjunto, Departamento de Morfologia e Genética, Unifesp, Luis Garcia Alonso, enviou recentemente à Márcia Adriana Rebordões, mãe do Thiago e responsável pelo site Pequenos Corações (www.pequenoscoracoes.com), informações de pesquisa e estudos que estão realizando sobre a Síndrome  Hipoplasia do Coração Esquerdo (SHCE).

A pesquisa vem sendo realizada junto às famílias, cujos filhos nasceram com essa cardiopatia e a intenção é saber mais sobre os aspectos genéticos da doença e saber sobre a possibilidade dessa família ter outros filhos com a mesma cardiopatia.

Thiago Rebordões nasceu com SHCE e isso fez com que Adriana pesquisasse mais sobre o problema e acabasse abraçando não só a causa dos que tinham nascido com a cardiopatia do seu filho, mas a causa de outros pais que sofriam ao descobrir que o filho era um cardiopata.

Foi pesquisando sobre o assunto que Adriana acabou achando artigo sobre uma pesquisa idêntica a que está sendo desenvolvida pelo professor Alonso, só que nos Estados Unidos. De acordo com as informações colhidas por ela, nos EUA foi verificado a “existência de um gene específico (chamado GJA1) ligado à SHCE. Em linhas gerais, em se confirmando que a criança possui o tal gene com mutação, a probabilidade para esse casal ter mais filhos com o mesmo problema é de 25%”.

Márcia Adriana ressalta a pesquisa brasileira e pede a atenção dos pais cujos filhos são portadores de SHCE. Todos sabem que esta é uma das mais grave entre as cardiopatias congênitas e por isso a importância de ficarem atentos aos avanços da ciência.

Àqueles que desejarem participar do grupo que já vem sendo estudado pela equipe da Unifesp, segue mais informações abaixo escrita pelo Dr. Luiz Alonso ao Pequenos Corações  e disponibilizado aqui por Márcia Adriana.

Aspectos genéticos da síndrome da hipoplasia do coração esquerdo

             A síndrome da hipoplasia do coração esquerdo (SHCE) é uma modalidade de anomalia congênita de etiologia genética. A maior parte das más-formações cardíacas humanas isoladas se caracteriza pela participação de diversos genes em sua origem (etiopatogenia) e, dessa forma, há riscos de recorrência familiar ao longo dos indivíduos de uma geração e ao longo das diversas gerações.

            No entanto, ao contrário de várias outras formas de anormalidades cardíacas, a SHCE teve um gene associado ao seu aparecimento e que foi batizado de GJA1. Este gene localiza-se no cromossomo 6, em uma região denominada 6q21-q23.2.

            Apenas para recordar e homogeneizar o entendimento deste texto por todos os leitores: Cada uma de nossas células (e acredita-se que um indivíduo adulto tenha por volta de 10 trilhões de células) possui um material genético em seu interior. Este material genético é formado por uma substância denominada ácido desoxirribonucléico (DNA). Assim, cada uma de nossas células possui 46 segmentos de material genético que denominamos de cromossomos. Os cromossomos são classificados por ordem de tamanho e recebem nomes: cromossomo 1, cromossomo 2 e assim, sucessivamente.

            Por sua vez, nossos 46 cromossomos podem ser subdivididos em unidades menores: os genes. Acredita-se que ao longo dos 46 cromossomos, tenhamos entre 25.000 e 30.000 genes. E o que é um gene?

            De maneira resumida e bastante simplificada, um gene é uma unidade de material genético (ácido desoxirribonucléico) que possui a capacidade de produzir uma proteína que irá participar do funcionamento e da regulação do nosso organismo. De maneira bem genérica também, temos proteínas que colaboram com nossa estrutura (anatomia) e outras que se associam ao funcionamento de nossas células (fisiologia).

            Logo, voltando à SHCE, seu gene situa-se no cromossomo 6 e é responsável pela fabricação de uma proteína denominada conexina 43.

            Esta proteína possui diversas funções e uma delas é a participação na formação do coração (embriogênese), durante a vida embrionária e fetal. A conexina é uma proteína que promove a junção entre as células cardíacas e este processo, além de permitir que as células se organizem faz com que esta formação caminhe harmoniosamente.

            Quando um indivíduo possui uma alteração patológica do gene (e isto nós denominamos de mutação) há a confecção de uma proteína diferente da normal. Esta diferença pode ocorrer em termos de quantidade, qualidade ou ambos ao mesmo tempo. Seja qual for a modalidade de alteração, teremos uma conexina 43 modificada e isto acarretará uma falha do processo de embriogênese normal, levando à desordem celular e consequentemente à SHCE.

            Faz poucos anos que se conhece esta proteína e há poucos estudos que procuram compreendê-la à luz de uma síndrome genética.

            Baseado neste histórico e no antecedente de ter acompanhado uma criança com a SHCE (criança esta que era paciente da equipe do Professor José Pedro da Silva), nos surgiu a idéia de desenvolvermos um projeto de pesquisa para melhor compreender o comportamento desta proteína, na síndrome da hipoplasia do coração esquerdo, bem como buscar mutações nos indivíduos afetados e proporcionar aos pais a oportunidade de um seguimento genético destes pacientes, o que denominamos de Aconselhamento Genético.

            Este projeto foi solicitado pelo Departamento de Morfologia e Genética da Universidade Federal de São Paulo junto à FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e foi aprovado há pouco mais de 1 ano. Neste período, nos empenhamos em adquirir os primeiros materiais permanentes e de consumo necessários ao estudo e firmamos uma parceria com a equipe do Professor José Pedro da Silva (e consequentemente com o Hospital da Beneficência Portuguesa) no sentido de avaliarmos amostras de sangue e tecido cardíaco dos pacientes e de sangue dos pais (genitores).

            Nossos objetivos são o de buscar possíveis mutações patogênicas deste gene e entender o funcionamento desta proteína sob diversas abordagens: microscopia de luz, microscopia eletrônica, imuno-histoquímica, imuno-fluorescência, morfometria, entre outras.

            Assim, neste momento, estamos em uma etapa de tentar entender melhor como se dá a base biológica de surgimento e estabelecimento da doença. Portanto, nossa abordagem laboratorial não representa uma pesquisa para se buscar um medicamento, uma estratégia de cura, um método novo para fertilização assistida ou medicina reprodutiva ou qualquer outra modalidade destes gêneros. Em Genética Médica, o entendimento de todas as doenças (e se calculam em mais de 10.000 o número de doenças genéticas) parte do princípio de conhecermos melhor o gene responsável e seu produto (a proteína).

            Paralelamente, todos os pacientes participantes ou não (e a participação é absolutamente voluntária e isenta de qualquer custo) terão a possibilidade de ser acompanhados no Centro de Genética Médica da Universidade Federal de São Paulo para uma ou mais consultas médicas de Aconselhamento Genético onde será mais bem explicada a doença e serão discutidas as possibilidades e os riscos futuros de recorrência envolvidos em novas gestações. Vale ressaltar que os pacientes cujo material será coletado para análise molecular e celular serão escolhidos pela nossa equipe uma vez que esta parte laboratorial do projeto é limitada a um número de pacientes e por um determinado período de tempo. Por outro lado, a possibilidade do Aconselhamento Genético estará aberta a todos os pacientes e suas famílias.

            Vale ressaltar que, apesar da SHCE ser uma única doença, o modelo de Aconselhamento Genético é diferente para cada família. Há situações onde a SHCE aparece isolada e em alguns pacientes pode aparecer associada a outras anormalidades. Na mesma linha, cada família é única e o Aconselhamento Genético objetiva não apenas estipular os riscos de recorrência da síndrome, mas também avalia a possibilidade de recorrência de outras doenças que, por ventura, estejam ocorrendo nestas famílias. Em conclusão, cada caso deve ser visto em particular e o que for passado a um paciente e seus pais não se aplica aos demais, daí a individualização do Aconselhamento Genético.

            Temos plena ciência da complexidade da doença e da angústia vivida pelos pais e familiares que convivem com estas crianças tão especiais e que nos dão grandes lições de ternura, carinho e vontade de viver. Assim, imbuídos deste espírito nos aliamos ao grupo do Professor José Pedro da Silva e gostaríamos de proporcionar o acompanhamento genético-clínico a estas famílias para que conheçam e estejam cientes das informações genéticas, clínicas, prognósticas e reprodutivas envolvidas nesta patologia.

            Fica um abraço afetuoso aos pais e o agradecimento especial à Associação Pequenos Corações pelo apoio e confiança aos nossos objetivos.

            Atenciosamente,

Luís Garcia Alonso

Médico Geneticista e Professor Adjunto, Departamento de Morfologia e Genética, UNIFESP

lgalonso.ops@terra.com.br

 

Christina Vretos

Bióloga Geneticista e Pesquisadora, Departamento de Morfologia e Genética, UNIFESP

chvretos@gmail.com

 

Ricardo Luiz Smith

Professor Titular, Livre-Docente e vice-Reitor, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

 

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Serviço:

 Contato da Márcia Adriana Rebordões:

 dri_rebordoes@hotmail.com

Twitter:

http://twitter.com/Drirebordoes

 Site:

 www.pequenoscoracoes.com

 Link para artigo sobre pesquisa nos Estados Unidos:

 http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6T2C-43HT1TP-G&_user=10&_rdoc=1&_fmt=&_orig=search&_sort=d&_docanchor=&view=c&_searchStrId=1011712041&_rerunOrigin=scholar.google&_acct=C000050221&_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=1b14f5bc328797b9f477dc5245c03c50

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